CAPÍTULO 10

O caminho é íngreme, faz curvas fechadas montanha acima, levando mais alto do que eu já havia estado nos Cárpatos. Eu me agarro com força à mão de Lucius, ficando sem fôlego apesar de andarmos devagar. Aqui o terreno é mais rochoso e as árvores, mais esparsas. O ar é mais rarefeito, o que torna a subida ainda mais difícil.

Até Lucius, que está em forma e foi criado nessas montanhas, parece respirar com um pouco mais de dificuldade. Está escurecendo e não falamos, concentrados demais em ver onde pisamos, e no silêncio posso ouvi-lo inspirar e expirar num ritmo firme ao meu lado.

E então o silêncio daquele local solitário é rompido pelo som de alguém – alguma coisa – perto, porém escondido. Passos indo depressa na direção oposta, escorregando e deslizando montanha abaixo, de modo que lançam pedras no vale abaixo de nós.

Quem – ou o que – passou por nós parece grande – ou talvez seja mais de um...

Aperto com força os dedos de Lucius, fazendo-o parar, e pergunto num sussurro, com preocupação mal disfarçada:

– Lucius? Está ficando tarde... – Olho a distância, procurando formas ou sombras na direção daquele som agourento. – Você não acha que a gente deveria voltar amanhã?

Sei que não preciso lembrá-lo de que há ursos e lobos nestas montanhas – e pessoas que destroem vampiros. Tenho certeza de que ele entende por que estou ficando nervosa.

O som de passos fica mais fraco, levado para longe por um vento crescente, mas não me tranquilizo – até que Lucius, que estava meio passo à frente, guiando-me por um caminho no qual me sinto completamente perdida, pergunta baixinho:

– Eu deixaria alguma coisa ruim acontecer a você, Antanasia? Deixaria que você ao menos tropeçasse?

É uma pergunta que sei que provavelmente sempre vai estar entre nós, tendo em vista como nosso compromisso começou – e quase acabou. Tendo em vista quem Lucius É.

Mesmo sabendo que a resposta sempre será não – que ele jamais deixaria nada de ruim me acontecer – também tenho certeza de que nunca vamos esquecer o que poderia ter acontecido na noite em que Lucius fez de mim a primeira prisioneira da guerra contra minha família.

Aquele momento em que a estaca – a estaca desaparecida – rolou pelo tapete, perto do fogo, sempre estará conosco.

Às vezes acho que Lucius questiona minha confiança nele mais para se certificar de que eu realmente acredito em seu amor do que para me certificar de que não tenho nada a temer quando estou com ele.

Enquanto tento encarar seus olhos negros na escuridão que se aproxima, o vento sopra no vale de novo, chocando-se contra nossos corpos, e me desequilibro na encosta íngreme, mas, claro, ele está ali para me firmar, segurando meu braço com a mão livre.

Recupero o equilíbrio, mas ficamos imóveis por um segundo, cara a cara. Esqueço meus temores, porque quero desesperadamente que ele me beije. Sempre que estamos perto assim sozinhos e sinto o cheiro de sua pele e suas mãos em mim, também tenho vontade de sentir seus lábios nos meus.

Mas Lucius tem outros planos – um destino em mente.

– Venha – diz sorrindo como se soubesse que sua pergunta sobre confiança foi respondida; provavelmente pela expressão dos meus olhos, que são mais claros do que os dele e sem dúvida fáceis de ser interpretados à claridade da lua nascente. Tenho certeza de que ele podia ver o que eu estava pensando e, apesar de dizermos um ao outro com frequência como nos sentimos, ainda fico um pouco sem graça ao ver como meu amor por ele deve ser aparente em meus olhos. Ainda me parece estranho ficar tão exposta assim, ao passo que Lucius, treinado desde o nascimento para ser fechado, invulnerável, às vezes é difícil de entender, até mesmo para mim.

Começamos a andar de novo. Lucius diminui o passo ainda mais, porque a caminhada está ficando mais difícil e o ar, muito rarefeito para pulmões como os meus, acostumados à vida perto do nível do mar no sul da Pensilvânia.

Meu olhar está fixo no chão, porque não quero ter que contar apenas com Lucius para não cair. O terreno à nossa frente sobe enquanto seguimos pelos enormes afloramentos de rocha que passei a conhecer como inerentes aos Cárpatos.

Estou tão concentrada no solo que perco a noção de tudo ao redor, inclusive do tempo, e fico surpresa quando Lucius se detém de repente e aperta minha mão com mais força, sinalizando que devo parar de andar e erguer o rosto para olhar em frente.

E quando faço isso o que se estende diante de mim é o... nada.

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