CAPÍTULO 12

Lucius se afasta de mim, só um passo, mas continua a segurar minhas duas mãos. Seus olhos estão fixos nos meus e gradualmente vejo-os mudar de novo.

Pela primeira vez vejo em seus olhos enigmáticos, frequentemente resguardados, a mesma necessidade explícita de mim que eu sempre lhe mostro e sei que a última barreira entre nós está sendo derrubada. Lucius me disse, muitas vezes, que me ama. E eu vi esse amor em seus olhos. Mas nunca assim. Ele está se revelando de propósito, expondo a alma de um modo que sei que é difícil para ele, e não consigo deixar de encarar seus olhos, querendo me lembrar para sempre desse momento, dessa expressão.

– Eu trouxe você aqui esta noite para pedir que se case comigo, Antanasia – diz Lucius finalmente, no momento em que começo a sentir que estou despencando naqueles olhos, como tive medo de cair num abismo enquanto vínhamos para este lugar.

Mas com essas palavras – essas palavras impossíveis – tudo fica parado.

O próprio tempo parece se imobilizar bruscamente.

– Lucius... – murmuro seu nome, sem acreditar que o momento é real.

Casar com Lucius é praticamente tudo em que pensei – ao mesmo tempo evitando e desejando desesperadamente – desde que o conheci e fiquei sabendo do pacto. No entanto, ainda não consigo acreditar nos meus ouvidos e fico examinando as profundezas infinitas e negras de seus olhos, querendo a confirmação de que não estou dormindo.

– Lucius...?

Ele segura minhas mãos com mais força, apertando-as contra o peito.

– Eu quero pedir, neste lugar onde fomos prometidos um ao outro, que você se case comigo, não porque isso é exigido de você, mas porque você me ama como eu a amo – diz ele. – Peço que me escolha por livre vontade, porque é assim que escolho VOCÊ, Antanasia. Não para cumprir um pacto, mas para seguir meu coração, que não aceitará nada menos do que uma vida com você ao meu lado.

Quero gritar “Sim!”. Quero berrar e me jogar nos braços dele. Mas meus pés parecem enraizados e minha língua está presa na boca. Não consigo fazer nada além de encará-lo, certa de que ele já vê a resposta nos meus olhos.

E então, de pé à minha frente, o que parece adequado para nós dois, melhor do que ele se ele se ajoelhasse, Lucius faz a pergunta que eu queria escutar... talvez desde a primeira vez que o vi.

– Antanasia, quer se casar comigo? – Ele solta uma das minhas mãos para acariciar meu rosto, empurra meus cachos e sua voz fica mais suave, mais terna ainda, quando pergunta de novo, quase num sussurro: – Quer, Antanasia? Ser minha mulher?

Aquela vulnerabilidade nua que eu tinha visto nos olhos de Lucius ecoa em sua voz e é essa doçura – esse pedido sem reservas, esperançoso, de que eu prometa ficar para sempre com ele – que finalmente me permite falar. Porque sei que isso é o mais perto que Lucius jamais chegará de suplicar em toda a sua existência e é o que ele está fazendo por mim. Para mostrar quanto me quer.

– Quero, Lucius! – grito. Pelo menos penso que grito. Mas na verdade minha voz sai fraca, quase embargada. – Quero! – repito, tirando minhas mãos das dele e passando os braços ao redor de seu pescoço. Fico nas pontas dos pés para alcançá-lo, para sussurrar no seu ouvido, porque quero lhe dizer, de novo e de novo: – Quero, quero, quero...

Ele me aperta, sussurrando no meu ouvido também.

– Obrigado, Antanasia... Obrigado por me amar...

Ficamos abraçados por um longo tempo enquanto a realidade se assenta. Vamos nos casar, não para cumprir um tratado, mas porque não podemos viver um sem o outro.

Então Lucius enfia uma das mãos no meu cabelo e eu me ajeito em seus braços para ver seu rosto de novo, logo antes de ele se curvar e seus lábios encontrarem os meus, beijando-me com suavidade. Então nos beijamos assim várias vezes, gentilmente. É como se nós dois reconhecêssemos que esse momento merece reverência, assim como o local em que ele acontece. Quando os lábios ásperos de Lucius encontram com tanto cuidado os meus macios, é quase como se ele estivesse me prometendo: “É assim que sempre vou cuidar de você.”

E de algum modo, enquanto ainda estamos nos beijando, Lucius pega minha mão esquerda e põe um anel no meu dedo. Nem chego a percebê-lo colocar a mão no bolso para pegá-lo.

Sei que a maioria das garotas provavelmente daria um gritinho e recuaria, querendo ver o diamante, mas eu nem abro os olhos. Só ponho os braços de novo em volta do pescoço dele, sem me importar com a aparência do anel. Eu ficaria feliz com nada... com nada mais do que já temos...

– Antanasia.

A voz se intrometeu no meu sonho e eu rolei de lado, afastando-a, não querendo abandonar Lucius e tudo o que eu estava revivendo. Mas a voz – a voz de mamãe – me interrompeu de novo e senti uma pressão no ombro enquanto ela me sacudia.

– Antanasia.

– Ah, mãe – reclamei, desejando mais cinco minutos na cama –, por favor.

Mas mamãe apenas me sacudiu com um pouco mais de força e, quando abri os olhos, ela estava rindo de mim.

Pisquei umas três vezes, porque a luz do sol estava entrando no quarto e refletindo no diamante enorme que agora sempre adorna minha mão esquerda. Herança da família Vladescu, tinha sido retirado e escondido pela mãe de Lucius, Reveka, antes de sua destruição. Um tesouro antigo que ela queria que seu filho único me desse.

Então olhei para mamãe e ela parecia feliz de novo e talvez um pouco surpresa ao se ouvir dizendo palavras que me surpreendiam também, mesmo que eu estivesse planejando e antevendo nada menos do que este dia há semanas.

– Acorda, dorminhoca – instigou ela com um sorriso. – Você vai se casar hoje!

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