CAPÍTULO 16

Mas no momento em que encostei a lâmina no pulso, parei.

Aquilo iria doer e, se a faca entrasse fundo demais, eu poderia sangrar além da conta. Cortar os pulsos é uma forma de se suicidar.
Eu sabia que não iria morrer de verdade naquela noite – não podia ser destruída desse modo. Mesmo assim, vi que minha mão tremia um pouco quando encostei a lâmina no ponto onde uma veia azul era visível logo abaixo da pele.

Uma coisa era deixar Lucius rasgar minha carne suavemente num momento de paixão. Outra, muito diferente, era estar ali sozinha, como um cirurgião sem treinamento, tirando meu próprio sangue em quantidade suficiente para encher uma taça que agora parecia muito maior.

Mindy se remexeu atrás de mim, fazendo farfalhar seu vestido preto e simples, e eu soube que precisava agir logo. Estava ficando tarde e eu não queria fazer nossos convidados esperarem – acima de tudo, não queria fazer Lucius esperar.

Lucius...

Em algum lugar nos recessos do castelo Vladescu, onde quer que ele estivesse se preparando, estaria realizando o mesmo ritual que eu. Mas eu sabia que sua mão não tremeria. Podia imaginá-lo erguendo calmamente a faca, encostando a lâmina na carne e riscando uma linha quase invisível pelo braço. Uma linha que em segundos ficaria vermelha, quando o sangue começasse a sair. Ele viraria o pulso para a taça e permitiria que ela recolhesse as gotas.

Com a mão já mais firme, apertei a faca contra minha carne. A lâmina afiada como um bisturi rompeu a pele, me fazendo encolher. Então apliquei só um pouco mais de pressão, focalizada naquele fino traço de veia azul.

Ouvi Mindy ofegar enquanto o sangue escuro e denso jorrava subitamente da ferida, cobrindo meu pulso.

A princípio o talho fino não havia doído, mas então começou a arder e eu prendi a respiração e me forcei a ignorar a dor aguda, latejante.

Faça isso pelo Lucius. A pior parte já passou.

Preparando-me para mais dor, puxei a lâmina por mais um centímetro e meio pelo braço, depois virei o pulso rápida e cuidadosamente, de modo que o sangue que agora saía mais depressa pingasse num ritmo constante na taça que o esperava.

Eu sabia que Mindy provavelmente estava horrorizada, talvez até um pouco enojada com aquilo. Se eu estivesse no lugar dela, se nunca tivesse provado ou compartilhado sangue, me sentiria do mesmo modo. Mas eu havia mudado e, enquanto o líquido quase preto se derramava da veia, não pude deixar de pensar, apesar da dor, em como ele era lindo. Eu queria compartilhar essa minha essência com Lucius, naquela noite e muitas, muitas vezes no futuro...

– Jess?

A voz insegura de Mindy interrompeu meus pensamentos. Ergui os olhos e vi que ela havia chegado perto e estava curvada ao meu lado, com uma expressão preocupada.

– Acho que já chega – disse, olhando meu braço. – Acho que você deveria parar.

– É – concordei, notando que a taça já tinha uma boa quantidade. – Chega.

Virei-me e girei o braço de modo a deixá-lo sobre a bandeja, depois usei a outra mão para levantar a colher cheia de ervas – gengibre e folhas de salgueiro – que impediriam o sangue de coagular rápido demais. Joguei-as dentro da taça e levei a mão em direção às tiras de tecido.

– Pode deixar – disse Mindy. Ela me surpreendeu puxando o pano antes que eu pudesse pegá-lo e segurando meu braço que sangrava. – Deixe que eu ajude, para você não sujar o vestido.

– Tudo bem – respondi, deixando-a enfaixar o ferimento.

Depois de cerca de um minuto, quando o sangue parou de atravessar o tecido, Mindy levantou com cuidado uma ponta e espiou embaixo.

– Acho que acabou – disse. E me encarou. – Mas vou deixar o machucado coberto, para não corrermos o risco de o corte abrir acidentalmente, certo?

Concordei balançando a cabeça.

– Obrigada.

Não era exatamente a resposta adequada para a pergunta de Mindy, mas eu queria que minha amiga soubesse quanto eu era grata pela calma e a habilidade com que ela estava lidando com uma situação que a maioria das damas de honra não precisava enfrentar. E também me sentia agradecida pela expressão dos olhos dela, que mostrava que não sentia repulsa por mim.

Olhei-a enrolar a bandagem em volta do meu braço com o mesmo cuidado que tinha arrumado meu cabelo e pensei que tinha escolhido a pessoa certa para ser minha dama de honra. Tinha escolhido a garota certa para ser minha melhor amiga.

– Obrigada – repeti, enquanto ela enfiava a ponta do pano por baixo da parte enrolada, para que o curativo ficasse o mais arrumado possível.

Quando Mindy se levantou, ergui o braço e olhei para a bandagem. Em vez de estragar meu visual, como eu temera, ela me pareceu estranhamente adequada. Era um lembrete de que, apesar do cuidado que Lucius e eu estávamos tendo para tornar nosso casamento perfeito e parecermos perfeitos um para o outro, nós dois tínhamos defeitos. Levaríamos para o casamento não somente amor mas também velhas feridas com as quais o outro sempre precisaria ter cuidado. Eu sempre teria que levar em conta a infância horrível de Lucius e entender quando ele ficasse quieto e fechado. E Lucius sempre teria que me assegurar de que seu lado obscuro jamais se viraria contra mim.

Passei os dedos pelo tecido, encolhendo-me de novo quando eles roçaram acima do corte, que ainda ardia um pouco. Lucius teria uma bandagem praticamente idêntica, amarrada por Raniero, e a mesma dor.

– Devo levar isso para fora? – ofereceu Mindy, estendendo a mão para a bandeja.

– Não, espera – respondi, segurando seu braço. – Ainda não terminei.

– Não? – Mindy ergueu as sobrancelhas e o modo como sua voz saiu como um gemido me disse que, mesmo fazendo um ótimo trabalho para enfrentar um casamento vampiro, ela já havia me visto derramar sangue suficiente por uma noite.

Mas eu não tinha escolha. Peguei a faca de novo, desta vez sem medo, porque sabia que aguentaria a dor. Então, usando a mão esquerda, marquei a palma da direita com um X fundo. O sangue saiu de novo e eu peguei o último pano limpo, apertando-o com força para estancar o fluxo.

– Lucius vai marcar a mão esquerda dele – contei a Mindy, que pareceu compreensivelmente confusa. – Assim, quando nos dermos as mãos na cerimônia para dizer os votos, nossos sangues vão se misturar.

– Ah, nossa...

Dava para ver que Mindy, sempre romântica, estava dividida entre pensar que esse era o gesto mais lindo do mundo ou o mais errado.

– Alguns vampiros ficam com a cicatriz pelo resto da vida – acrescentei. – Como uma aliança que nunca pode ser tirada.

Por isso eu tinha tentado cortar a palma da mão tão fundo. Minha primeira cicatriz de verdade. Lucius obviamente faria seu corte fundo e grande. Eu sabia que, tendo suportado tantos ferimentos graves no passado, ele nem se encolheria ao acrescentar mais uma cicatriz à mão, para se marcar como sendo meu.

– Agora terminei, se você tem certeza de que não se importa – anunciei, orientando minha amiga, que parecia não saber o que pensar a respeito daquilo, e indicando que era hora de ela levar a bandeja (e de parar de se preocupar se eu usaria a faca de novo).

– Ah, claro – disse ela, pondo a tampa na taça e equilibrando a bandeja com uma das mãos enquanto abria a porta.

O empregado silencioso que esperava pegou a bandeja das mãos de Mindy e ela fechou a porta. Quando voltou para perto, perguntou:

– E agora?

– Agora esperamos quem vai nos levar para a cerimônia.

Apesar do conselho de mamãe, comecei a sentir um frio na barriga. Em algum lugar do castelo nossos convidados – vampiros e humanos – já estavam reunidos e Lucius estaria a caminho da cerimônia e...

Quem viria me buscar?

Outro empregado? Um dos guardas de Lucius?

Não precisei esperar muito. Antes mesmo que Mindy pudesse decidir se deveria se sentar e correr o risco de amarrotar o vestido, houve outra batida à porta do quarto. Mais uma vez corri para atender, nervosa e impaciente demais para deixar minha dama de honra fazer isso.

Dessa vez, quando abri a porta para revelar o corredor, vi que alguém estivera muito, muito ocupado enquanto eu derramava meu sangue por Lucius. E também recebi, com enorme felicidade, meu acompanhante para a cerimônia.

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