CAPÍTULO 19

Enquanto os convidados se sentavam de novo, Alexandru Vladescu, o vampiro que presidiria a cerimônia, estendeu os braços e pôs as mãos, que tremiam por conta da idade, na nossa testa. Então Lucius e eu a baixamos a cabeça ligeiramente enquanto ele anunciava às nossas famílias a bênção inicial da cerimônia.

– Estamos reunidos esta noite para unir, por toda a eternidade, o príncipe Lucius Vladescu e a princesa Antanasia Dragomir e lhes oferecer a bênção de nossos clãs – disse ele, os dedos surpreendentemente firmes em minha cabeça. – A partir deste dia, como foi prometido pelo pacto selado quando nasceram, eles viverão e governarão como um só.

Então ele retirou as mãos e Lucius e eu erguemos a cabeça. Tive a certeza de que aquela era a primeira das duas únicas vezes em que Lucius Vladescu se curvaria diante de outro vampiro, mesmo que se tratasse de um Ancião venerável, sábio ou poderoso. A próxima vez que Lucius baixasse a cabeça seria em nossa coroação como rei e rainha. Se esse dia chegasse...

Olhei ligeiramente para o lado para ver Lucius de perfil, o nariz reto, o queixo forte e a mecha do cabelo preto recém-cortado que caía em sua testa, como se ele não pudesse conter esse seu lado impossível de ser governado, mesmo no nosso casamento.

Lucius, que seria pai dos meus filhos, os próximos príncipes e princesas...

– Mas primeiro – disse Alexandru, atraindo minha atenção de novo, de modo que me peguei espiando seus olhos, que eram escuros e familiares, os olhos dos Vladescu, que tinham visto séculos, talvez milênios, de casamentos, nascimentos... e destruições. – Primeiro vocês devem aceitar um ao outro como marido e mulher, diante de suas testemunhas.

Foi minha vez de apertar a mão de Lucius, os dedos automaticamente se contraindo em volta dos dele, e respirei trêmula.

Esta era a parte mais importante da cerimônia. Mesmo sabendo que Lucius queria se casar comigo, senti meu estômago revirar, apreensiva e nervosa, porque a pergunta que seria feita a seguir não era mera formalidade. No mundo em que eu estava entrando, onde as uniões eram mesmo eternas, as próximas palavras davam aos noivos uma última chance de reconsiderar, antes que o elo fosse forjado para sempre.

– Lucius Vladescu – disse Alexandru, quase como um agouro –, você aceita Antanasia como sua esposa, enquanto você existir?

Lucius e eu nos viramos um para o outro e ele segurou minhas duas mãos. No momento em que vi seu rosto, minha apreensão desapareceu. Não somente sua expressão continuava aberta, sem reservas, para mim, mas vi de novo nos seus olhos o amor profundo que agora sempre estava ali – às vezes um pouco escondido atrás do riso, da frustração ou das outras emoções mais complexas de meu príncipe, mas sempre ali. E naquela noite, tudo o que vi foi o amor enquanto Lucius, falando aos nossos convidados e ao mesmo tempo só para mim, disse sério, reverente:

– Sim, aceito Antanasia como esposa, agora e sempre, enquanto eu existir.

Mesmo sabendo de coração que Lucius me aceitaria e que meu temor momentâneo não tinha fundamento, fiquei aliviada – e emocionada a ponto de chorar – por ouvi-lo dizer essas palavras em voz alta.

Ele me queria, para sempre...

Então, enquanto Lucius e eu permanecíamos virados um para o outro, com as minhas mãos nas dele, Alexandru Vladescu falou meu nome e fez a mesma pergunta.

– Antanasia Dragomir, você aceita Lucius como seu marido, enquanto você existir?

Nem esperei que a voz do velho vampiro se esvaísse na noite silenciosa. Abri a boca para responder, certa de que não precisava pensar. Claro que eu sabia qual era a resposta...

Mas antes que as palavras saíssem da minha boca, Lucius apertou minha mão de um modo que eu entendi que se destinava a me silenciar. Então ele baixou os olhos, fechando-se para mim.

Esperei, insegura, sem entender o que ele estava fazendo.

E quando ele ergueu os olhos de novo, vi a última parte, a mais escondida, da alma de Lucius. Tive um vislumbre de um lugar dentro dele que nunca esperava ter permissão de ver, nem mesmo se realmente vivêssemos para sempre.

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