CAPÍTULO 2

– Estou pensando num coque clássico – disse Mindy, a cabeça inclinada enquanto folheava as páginas de uma edição especial para noivas da revista Penteados das celebridades. – Dependendo, é claro, do que você vai usar na cabeça.

Eu estava dividida entre conferir as opções disponíveis e olhar a paisagem de fora do carro. Aparentemente Lucius havia previsto a quantidade de malas de Mindy, porque o utilitário de luxo que ele mandara para nos buscar do aeroporto tinha um porta-malas bem maior que o dos outros muitos veículos da garagem dos Vladescu. E eles logo estariam à minha disposição também, por mais que ainda fosse difícil acreditar.

Do outro lado da janela, os Cárpatos se descortinavam teatralmente e, quando fazíamos uma curva mais íngreme na montanha, de repente só o que se via era o céu. Eu me pegava meio boquiaberta, não só porque parecia que íamos voar para fora da estrada, mas por causa do assombro de perceber que aquela paisagem escarpada e selvagem era meu novo lar.

– Jess? – Mindy deu um tapinha no meu braço. – Eu perguntei o que você vai usar na cabeça. Vai ser uma tiara, não é? Quero dizer, tem que ser uma tiara!

Virei-me e vi os olhos de Min brilhando diante da perspectiva de fazer parte de um legítimo casamento da realeza – algo que nunca pensaríamos que pudesse acontecer de verdade a qualquer uma de nós, apesar do que pregavam nossos filmes prediletos da Disney.

– É, vai ser uma tiara – confirmei, imaginando se Mindy não estaria mais empolgada do que eu com o casamento propriamente dito. Eu mal podia esperar para me casar com o Lucius, mas pensar na cerimônia me deixava nervosa.

Será que eu conseguiria seguir o protocolo da forma adequada?

Será que os convidados iriam se divertir?

E, mais importante, será que algum dos meus parentes – Dragomir ou Vladescu – causaria alguma encrenca? Porque isso com certeza era possível.

– Estou doida para ver o vestido! – disse Mindy, voltando a atenção para a revista no colo. – Aposto que é lindo!

– Você vai ver amanhã – prometi, esperando que ela gostasse. E esperando que Lucius gostasse. Eu mesma, com a ajuda do alfaiate romeno de Lucius, tinha desenhado o vestido, que era pouco convencional. Mas eu queria algo que fosse diferente e especial, um vestido que me lembrasse do meu passado e do meu futuro. Sorri ao pensar que aquela roupa seria também um tributo a um dos momentos mais importantes que Lucius e eu tínhamos compartilhado.

Eu ainda podia escutar sua voz enquanto ele parava atrás de mim numa butique na Pensilvânia e segurava meus cabelos. “Nunca mais diga que você não é inestimável, Antanasia. Ou que não é linda...”

Eu desejava ardentemente que Lucius me achasse mais do que linda quando eu caminhasse em direção a ele no altar.

Tinha que deixá-lo sem fôlego.

Nada menos do que isso.

Já nervosa de novo, voltei a olhar pela janela e vi os telhados de Sighişoara a distância. Pensei em desviar um pouco do trajeto e mostrar a Mindy aquela cidade medieval tão charmosa, como meu tio Dorin tinha feito comigo quando cheguei à Romênia, mas mudei de ideia no último momento. Havia outra coisa que, de repente, fiquei ansiosa para mostrar a Mindy, mais importante do que as ruas estreitas e lindamente antiquadas que Lucius percorrera na infância.

Inclinei-me e dei um tapinha no ombro do motorista, sinalizando para ele no meu limitado romeno:

– Se opreste cind ai lui Vladescu casa, te rog.

Apesar de Mindy ter levantado os olhos da revista para olhar para mim admirada, tive quase certeza de que minha gramática – assim como minha pronúncia – estava bem ruim. Mas o motorista – um dos guardas jovens e sérios que um dia me prenderam pelos braços na floresta escura – deve ter entendido, porque assentiu sem desviar os olhos da estrada sinuosa e concordou:

– Da, bineinteles.

– O que foi? – perguntou Mindy, parecendo bastante à vontade para uma garota que dava seu primeiro passeio pela área rural da Romênia em um carro de luxo com um motorista vampiro.

– Vamos parar um segundinho – respondi. – Quero que você veja uma coisa.

– O que...?

Antes mesmo que Mindy pudesse terminar a pergunta, o carro diminuiu a velocidade e foi para o acostamento. Eu apontei para além do ombro da minha amiga, direcionando seu olhar.

Ela se virou no banco e, quando viu a paisagem, teve a reação que eu esperava, porque eu havia reagido do mesmo modo quando Dorin parou praticamente no mesmo ponto da estrada. Eu ainda tinha a mesma reação toda vez que via o lugar que seria minha casa. Era uma mistura de espanto, incredulidade e, talvez, um toque de medo que fazia o queixo cair e me deixava – e agora deixava Mindy – incapaz de pensar ou dizer qualquer coisa além de...

– Esse lugar é de verdade?