CAPÍTULO 20

Nos últimos momentos antes de eu me comprometer a ser dele – a ser parte dele – para todo o sempre, Lucius me permitiu ver aquele lado sombrio, ferido, que um dia o levara a encostar uma estaca em meu peito antes de desmoronar e gritar com fúria e desespero: “Tudo à minha volta é destruição!”

Encarei-o abalada mas me recusando a afastar os olhos, apesar de aquele aspecto de Lucius ser aterrorizante. Eu sabia que nunca mais veria essa parte dele – pelo menos não daquele jeito – e quis tentar entendê-la antes de nos unirmos eternamente.

Enquanto examinava seus olhos, vi não somente o príncipe vampiro que quase havia me destruído, que havia destruído o tio e que poderia tirar vidas no futuro, mas também o órfão criado com surras em vez de amor. Foi como se toda a história de Lucius se desdobrasse à minha frente, revelando-se ao mesmo tempo a origem de sua força, de sua capacidade de suportar a dor, de governar uma nação de vampiros e de sacrificar até mesmo a própria existência, se necessário, e o motivo de seu poder ser sempre perigoso.

– Ah, Lucius... – murmurei seu nome, esquecendo a cerimônia, esquecendo totalmente os convidados. – Lucius...

Ele estava me dando mais uma chance de fugir, como havia oferecido na noite em que provou meu sangue. A última chance de fugir...

Mas ver aquele lado de sua alma só me fez desejá-lo ainda mais.

Ele confiava em mim o bastante para revelar sua natureza mais sombria. Apesar de amar ser novidade para ele, Lucius acreditava que nosso amor era forte o suficiente para impedir que eu jamais lhe desse as costas.

Ficamos em silêncio por longo tempo, com o sangue que fluía entre nossas palmas engrossando, colando-nos mais ainda. Nossos convidados não faziam ideia do que se passava entre nós e provavelmente se perguntavam se eu iria cancelar o casamento.

E, então, sem hesitar e ainda olhando nos olhos de Lucius, confrontando a dor profunda e o poder incrível que ele lutava para controlar, eu disse a todo mundo, e no entanto somente a Lucius, como ele havia me dito:

– Sim, aceito Lucius como meu marido, agora e sempre, enquanto eu existir.

Lucius baixou os olhos de novo e eu tive a certeza de que ele jamais me revelaria aquele seu lado de novo, de modo tão aberto. Que eu não deveria vê-lo de novo. Que, como a estaca que ele havia apontado para mim e que desaparecera, eu deveria aceitar que essa parte de Lucius existia, fora do meu alcance e sempre capaz de vir à tona.

Quando ele me deixou ver seus olhos de novo, tudo o que havia neles era felicidade – a volta do vampiro que eu tinha passado a amar, em toda a sua glória arrogante, maravilhosa, espirituosa, terna, dominadora. Seus olhos tinham somente uma leve sombra daquele lugar escuro que eu sempre reconheceria, juntamente com o amor que eu via em seu olhar.

Eu jamais iria rever a escuridão que ele abrigava, mas sua fonte nunca estaria totalmente escondida de mim. E, como sua noiva, achei que isso era certo.

Os cantos dos lábios de Lucius se ergueram com um sorriso e eu sorri também, sabendo que sentíamos o mesmo. Ambos acreditávamos que, apesar de a cerimônia ainda não estar terminada, no momento em que eu aceitei Lucius e ele me aceitou, tínhamos nos tornado marido e mulher. Eu mal podia esperar para beijá-lo e selar a nova aliança entre nós.

Continuamos nos encarando, compartilhando a felicidade e uma paz nova e maravilhosa.

Foi necessário esforço para parar de encarar Lucius, para pararmos de sorrir um para o outro, mas por fim soltamos as mãos que não tinham cortes e nos viramos de novo para Alexandru, que assentiu primeiro para Raniero, depois para Mindy, sinalizando que deveriam pegar as taças.

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