CAPÍTULO 21

Ainda que eu tentasse me lembrar de cada detalhe do restante da cerimônia com tanta clareza quanto me lembrava do instante em que percebi que Lucius era mesmo meu marido, só conseguiria capturar algumas cenas que vieram em seguida.

O momento em que Mindy – com uma expressão estranha, quase perturbada nos olhos, em vez das lágrimas sentimentais que eu esperava – me passou a taça de prata para que eu pudesse oferecer meu próprio sangue a Lucius e o modo como ele fechou os olhos ao aceitá-la da minha mão, levá-la aos lábios e beber.

E eu me lembraria de finalmente ter notado Raniero – percebendo que de algum modo Lucius tinha conseguido fazer seu padrinho tomar banho e se enfiar num smoking, de forma que ele parecia adequadamente régio ao entregar a Lucius sua taça.

E nunca esqueceria o peso da prata enquanto eu aceitava a taça e a levava aos lábios, a mão tremendo só um pouco de nervosismo e expectativa. A sensação de ter aquele cálice antigo em meus lábios ficaria para sempre na minha memória, tão fundo quanto o V gravado nele, um precursor rústico das elegantes iniciais desenhadas no marcador de livro que Lucius havia me dado.

E não me esqueceria do gosto de seu sangue – aquela essência doce, fria, incrível, do próprio Lucius, pela qual eu havia ansiado tanto tempo. A taça não tinha o suficiente para me satisfazer e nem deveria, mas eu sabia que beberia mais.

Claro que eu também me lembraria, sempre, de Lucius dizendo, em sua voz profunda:

– Ofereço-lhe nada menos do que o meu sangue, Antanasia, nada menos do que a mim mesmo.

Também houve imagens vívidas de Alexandru buscando a árvore genealógica que Lucius havia me mostrado meses atrás e apoiando-a sobre a mesa para que eu pudesse colocar meu nome ao lado do de meu marido.

Antes de encostar a pena no papel, eu me virei para olhar os convidados. Minha mãe parecia corajosamente feliz, meu pai chorava, os olhos de Dorin brilhavam e Claudiu se recusava a olhar, seu rosto virado enquanto eu colocava minha assinatura com cuidado e Lucius escrevia a data do nosso casamento acima do espaço onde um dia os nomes dos nossos filhos seriam escritos com a mesma tinta preta.

Todas essas coisas aconteceram depressa demais, até o momento em que Lucius colocou uma aliança brilhante no meu dedo e eu fiz o mesmo com ele, consciente de um modo maravilhoso e desavergonhadamente egoísta de que isso, mais do que a marca na palma da mão dele, diria ao mundo que ele me pertencia. Só os vampiros entenderiam o simbolismo da cicatriz na mão, mas uma aliança de ouro tinha significado universal.

Ninguém mais poderia tê-lo agora.

Lucius olhou para o meu rosto e me estendeu a mão esquerda, rindo um pouco por eu estar tão ansiosa por reclamá-lo publicamente para mim, e senti a força de seus dedos enquanto empurrava a aliança até o final.

Então, quando as alianças estavam no lugar, Alexandru Vladescu disse as palavras que eu jurava que não aguentaria esperar mais um segundo para ouvir:

– Lucius, pode beijar a noiva.

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