CAPÍTULO 3

– Você vai mesmo morar lá? – perguntou Mindy, sem afastar os olhos do enorme e imponente castelo gótico dos Vladescu. Deu mais um passo em direção à beira do precipício e eu segurei sua manga, com medo de que ela despencasse no vale íngreme e estreito que nos separava da casa de Lucius. Mas Mindy parecia hipnotizada demais para ao menos notar que eu a havia impedido. – Você vai se casar mesmo lá?

Era difícil dizer se o que havia na voz dela era fascínio ou preocupação. Talvez uma mistura dos dois. Ou talvez eu estivesse projetando em Mindy as emoções conflituosas que eu tinha em relação à minha futura casa.

Soltando sua blusa, protegi os olhos do sol poente e me juntei a ela para observar o enorme castelo onde em breve eu viveria com Lucius.

A vasta mansão de pedra, do tamanho de um pequeno – talvez não tão pequeno – quarteirão, era magnífica, sem dúvida, como se houvesse saído de um conto de fadas. No entanto, enquanto meu olhar percorria o exterior sinuoso, pontuado por pequenas torres pontudas que pareciam espetos e dominado por uma alta torre de vigia, não pude deixar de pensar, com mais do que um pouco de insegurança, que os contos de fadas sempre tinham tramas sombrias. Crianças se perdiam em florestas desoladas e esbarravam em bruxas que as cozinhavam em caldeirões. Um punhado de feijões levava a um encontro com um gigante furioso. E, como Lucius havia me lembrado à sombra das mesmas paredes de pedra que eu estava observando, menininhas inocentes podiam ser devoradas por lobos...

Mindy interrompeu meus pensamentos com um assobio baixo.

– Esse lugar é...

Ela parecia incapaz de articular os pensamentos, mas eu podia completá-los muito bem.

Gigantesco.

Espantoso.

Imponente.

Temível?
– É, eu sei – concordei, baixando a mão e olhando para Mindy. – É quase inacreditável para se descrever em palavras.

Ela finalmente conseguiu afastar o olhar também e me encarou.

– Quando você disse que ia se casar na “propriedade” de Lucius, não pensei que estivesse falando, tipo, de um castelo de Cinderela, de rei e rainha.

Olhei um pouco mais fundo nos olhos da minha melhor amiga, porque, pela primeira vez desde que Lucius entrara na minha vida – talvez pela primeira vez na minha amizade com Mindy –, tive a impressão de ter notado uma pontada de inveja, mas ela passou tão rápido quanto veio.

Mindy se virou de novo para o vale, parecendo atraída pela construção que dominava a paisagem, cuja silhueta ia ficando mais e mais nítida à medida que o sol se punha.

– Onde, exatamente, vocês vão se casar? – perguntou ela. – Existe, tipo, um salão especial só para casamentos? Porque parece suficientemente grande para ter um salão especial para tudo.

Olhei de novo para o castelo, examinando as torres, os pátios sombreados e as janelas altas e estreitas, e tentando formar uma imagem dele em minha mente.

– Lucius não quer me dizer – admiti.

Mindy girou para mim, pasma.

– O quê? Você está brincando, não é?

Apesar de nunca ter namorado ninguém – não muito diferente de mim num passado recente –, Mindy planejava seu casamento desde que tínhamos uns 5 anos. De jeito nenhum Melinda Stankowicz deixaria alguém, nem mesmo o amor de sua vida, tentar manter em segredo o local onde aconteceria a noite mais importante de sua vida. Principalmente se estivesse se casando numa propriedade onde havia coleções de armas e manchas de sangue.

Não, Mindy insistiria em ver a sala, a câmara, ou qualquer que fosse o lugar onde seu noivo pretendesse oficializar a união.

– A única coisa que sei é que ainda nem vi o lugar – contei. – Lucius o escondeu de propósito quando me mostrou o castelo.

Não só o castelo como um labirinto de câmaras subterrâneas que só podia ser chamado de masmorra, onde Lucius admitiu que fora “disciplinado” algumas vezes.

– Jess, tem certeza de que não quer ver o lugar onde vocês vão trocar os votos? – perguntou Mindy com preocupação genuína na voz. – É o seu casamento!

– Eu sei. Acredite, pensei nisso.

Eu tinha ficado muito preocupada quando Lucius sugeriu que eu o deixasse escolher, mas, quando questionei isso, meu futuro marido disse: “Conheço o lugar perfeito.” Depois arqueou as sobrancelhas escuras, com malícia nos olhos negros, e perguntou: “Você confia em mim, Antanasia?”

Encarei aqueles olhos enigmáticos, misteriosos, maravilhosos durante um bom tempo, sabendo que aquela era uma oportunidade única, em toda a eternidade, de escolher onde iria me casar... e pensando, só por uma fração de segundo, que o vampiro que estava diante de mim havia me surpreendido, não muito tempo antes, com uma estaca junto ao meu peito.

Lucius estava sorrindo, provocante, mas também havia algo sério no fundo dos seus olhos e tive a sensação de que ele estava testando nosso relacionamento, só um pouquinho. Pensei que aquilo era importante, mais do que apenas uma decisão sobre onde faríamos a cerimônia que unira gerações de vampiros antes de nós.

Então sorri também, espelhando a expressão de Lucius.

– Jess, fala sério!

A voz de Mindy me trouxe de volta ao presente.

– Você vai deixar um homem, mesmo sendo um cara maneiro como Lucius, tomar essa decisão?

Apesar das pontadas de apreensão que eu sempre sentia à sombra do castelo dos Vladescu, me peguei sorrindo do mesmo modo como tinha feito na noite em que permiti que Lucius cuidasse dessa escolha crucial. Então me virei para Mindy e disse, sem qualquer dúvida:

– Confio nele.

Então olhei o relógio, percebendo que tínhamos que ir.

– Venha – falei, já caminhando de volta para o carro. – Precisamos chegar à propriedade dos Dragomir, que é muito menos impressionante – alertei, de modo que ela não criasse muitas expectativas. – Tenho certeza de que você está louca por um banho e nós duas precisamos nos vestir para o jantar, depois pegar mamãe e papai, também. Na última vez que vi os dois, eles estavam saindo para uma caminhada pelas montanhas à procura de uma planta medicinal que papai se lembrava de ter colhido na última vez que estiveram aqui.

– Seus pais vieram? – perguntou Mindy. – Verdade?

– Claro – respondi, surpresa por ela estar surpresa. Era o meu casamento. Então me lembrei de como mamãe e papai tinham tentado me impedir de ir ajudar o Lucius naquela noite terrível em que ele quase foi destruído no celeiro dos Zinn. Mindy provavelmente sabia a maior parte do que havia acontecido naquela noite, inclusive que meus pais tinham pegado as chaves do carro, com medo de que Lucius tivesse mesmo sucumbido à sua natureza sombria e mordido Faith Crosse.

– Perdoei mamãe e papai há muito tempo – confessei a Mindy, nem me incomodando em perguntar quanto ela sabia. – Eles só estavam tentando me proteger. Não sabiam como as coisas iriam ficar ruins para o Lucius.

– É, acho que não sabiam – concordou Mindy, enquanto chegávamos ao carro. Ela conteve um passo, parecendo ter algo em mente.

Esperei também, enquanto ela escolhia as palavras.

– O Jake... – começou ela finalmente, parecendo hesitante em falar do meu antigo namorado, que havia cravado uma estaca no amor da minha vida. – Ele...

– Ele não tentou matá-lo de verdade – garanti. – Foi tudo armado para salvar a vida do Lucius. Jake é um cara legal – concluí, o que, de um modo estranho, era parte do motivo de eu não poder amá-lo.

– É, sua mãe me contou a história. Houve tantos boatos, tanta confusão depois daquela noite... Eu tive que perguntar qual era a verdade.

– Lucius convidou Jake para o casamento – acrescentei. – Até se ofereceu para pagar a passagem. Ele é muito grato pelo que Jake fez.

Os olhos de Mindy se arregalaram de surpresa.

– E?

Balancei a cabeça, antes que Mindy começasse a pensar que mais alguém da escola estaria na cerimônia.

– Ele recusou. Acho que prefere esquecer tudo.

Talvez me esquecer também, depois do modo como o tratei.

– É, entendo que ele queira isso. Jake não parece ser um cara que gostaria de ir a um casamento chique, principalmente com vampiros.

– É, acho que ele não se sentiria à vontade num castelo – concordei.

Eu ainda pensava em Jake como um cavaleiro de armadura brilhante, um sujeito bom de verdade, que tinha arriscado muita coisa para salvar um colega de escola de quem nem gostava. Um herói, de certa forma. Mas eu estava destinada a algo muito diferente, a alguém que, na certa, naquele exato momento estaria completamente à vontade se vestindo para um jantar formal ou fazendo a barba com uma navalha tendo cuidado com o ponto onde havia uma cicatriz. Talvez estivesse dando ordens de última hora aos criados ou andando em seu escritório, as mãos cruzadas às costas enquanto preparava o brinde que provavelmente faria naquela noite...

Apesar de agora eu ver Lucius quase todo dia, comecei a sentir aquele frio inevitável na barriga, que vinha sempre que eu pensava nele, e comecei a andar de novo para o carro, de repente com pressa de vê-lo.

– Anda, vamos!

– E onde vai ser o jantar? – perguntou Mindy, indo atrás de mim.

O motorista abriu a porta para nós duas e, quando subi no carro, ri por cima do ombro.

– Digamos que, em algumas horas, você vai olhar a casa de Lucius bem mais de perto!

– Caraca... – murmurou Mindy, subindo também. – Caraca...

E pela segunda vez naquela tarde eu não soube direito se ela estava empolgada ou apavorada. Ou talvez eu estivesse projetando meus sentimentos de novo. Porque, mesmo sabendo que Jake Zinn não fazia parte da lista de convidados, eu não tinha exatamente certeza de quem iria aparecer.

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