CAPÍTULO 4

O castelo Vladescu pode ter me intimidado por seu tamanho e sua história sinistra, assim como pelas paredes de pedra que o deixavam frio e assustador. Mas a sala onde Lucius e eu oferecemos um jantar pré-casamento para nossos parentes e amigos mais íntimos parecia cálida e acolhedora. As pessoas que eu mais amava estavam ali, reunidas à mesa de mogno comprida e brilhante que refletia a luz de nada menos que quatro enormes candelabros de ferro fundido, cada um com dezenas de velas tremeluzentes lançando um brilho suave na sala.

Apesar de ambos sermos anfitriões da festa, claro que Lucius chegou lá primeiro – sobretudo porque meu pequeno grupo de convidados se atrasou, graças aos acertos intermináveis que Mindy fez em nossos dois penteados – e ele sorriu e se aproximou enquanto entrávamos na sala.

– Bem-vindos, todos vocês – disse, chegando ao meu lado e pegando minha mão. Seu olhar encontrou o meu e vi a apreciação, o amor, que eu sempre desejava ver em seu olhar. – Você está linda, Antanasia – disse ele, baixando os olhos para avaliar meu vestido de seda, longo, volumoso, com um padrão discreto mas intricado de cristais Swarovski no corpete.

Na verdade não tinha escolhido esse vestido para impressionar Lucius e sim para homenagear minha mãe biológica, que era conhecida por usar carmim.

– Adoro você vestida de vermelho – acrescentou Lucius, levantando os olhos na direção dos meus outra vez. Apesar de seus olhos serem incrivelmente escuros, vi que estavam com um brilho caloroso, por isso soube que o havia agradado também. – Se bem que – observou ele, provocando – amei você mesmo quando usava aquela camiseta com o cavalo árabe.

Compartilhamos um sorriso com a referência à camiseta da qual Lucius costumava zombar – e que eu tinha usado na noite em que ele tentou dissolver o pacto e terminar nosso noivado. Mas, obviamente, ele não pôde evitar um destino que nós dois queríamos tanto.

Então ele se curvou ligeiramente, segurou meu queixo e beijou meus lábios. Enquanto meu coração martelava, como sempre acontecia quando nos tocávamos, percebi que fiquei um pouco vermelha por meus pais estarem ali. Não fazia muito tempo desde que eu me sentira humilhada só por ter sido pega com Lucius na varanda, nós dois nos aproximando para um beijo que acabou não acontecendo. Enquanto Lucius e eu nos separávamos, meu olhar saltou para mamãe e papai, para ver se minha súbita transformação em adulta – se o fato de estar beijando um garoto... um homem... em público, mesmo um beijo casto e doce – parecia estranho para eles também.

Mas quando vi seus rostos, foi difícil interpretar as expressões. Em seguida olhei para Mindy – e pela segunda vez no dia pensei ter notado uma pontada de inveja em seus olhos. Mindy tivera uma paixonite por Lucius antes de eu admitir meus sentimentos por ele.

– Ned, Dara, que prazer revê-los! – disse Lucius, interrompendo minha especulação. Ele soltou minha mão e passou por mim para abraçar meus pais. – Bem-vindos à minha casa.

– É bom ver você, Lucius – disse mamãe, fechando os olhos e puxando-o para perto, abraçando-o com força como uma mãe de verdade faria. – Sentimos saudade.

Os dois se abraçaram por tempo suficiente para eu saber que meu futuro marido também havia sentido saudade da minha mãe. O fato de ele não ter dito isso imediatamente me fez pensar que Lucius, que não tinha mãe, estava saboreando o toque maternal ou talvez estivesse perto demais de ser dominado pela emoção para conseguir falar.

Durante o breve tempo em que tínhamos morado todos juntos na Pensilvânia, minha mãe, com toda a certeza, havia destrancado algo em Lucius. Um lugar vulnerável que nem mesmo eu conhecia, uma parte de meu endurecido príncipe guerreiro que era apenas uma criança querendo receber amor materno.

– Obrigado por terem vindo – disse ele finalmente e, apesar de sua voz ter saído baixa, tive quase certeza de que Lucius se esforçava para controlar a emoção.

Quando mamãe o soltou, ele se empertigou e foi até o meu pai. Eu suspeitava de que papai, mais ainda do que mamãe, desconfiara de Lucius naquelas últimas semanas em que morou conosco, mas Ned Packwood nunca recusava um abraço. Os dois hesitaram um diante do outro por apenas um segundo, até que papai abriu os braços e convidou:

– Venha cá, Luc!

Em seguida apertou Lucius contra o peito e deu uns cinco tapas calorosos em suas costas, até que, rindo, Lucius se soltou e segurou papai a distância, dizendo:

– Calma aí, Ned! Para um pacifista, você bate forte!

Então todos rimos e de repente eu soltei o ar dos pulmões com um sopro quase audível e senti os ombros relaxarem. Até aquele momento, quando tive certeza de que tudo ficaria bem, eu nem tinha percebido como estivera tensa por causa do encontro deles.

Eu sabia que meus pais continuavam preocupados – talvez aterrorizados – com o fato de eu me casar com alguém da realeza vampírica. Mas uma parte deles sempre soubera que esse momento poderia chegar e, fiéis a seus princípios com relação a criar filhos, eles estavam deixando que eu seguisse meu caminho, que virasse a adulta que me criaram para ser. Estavam permitindo que eu escolhesse Lucius e que ele voltasse a ter um lugar em seus corações.

Para ser honesta, eu duvidava de que eles algum dia tivessem negado a Lucius esse lugar.

Lucius foi até Mindy, que de repente pareceu meio insegura, quase nervosa, quanto ao modo de agir naquele ambiente régio. Ou talvez, a seu modo, ela estivesse preocupada por se encontrar de novo com Lucius depois de tudo que acontecera na Pensilvânia.

– Ahmm...

Ela chegou a começar uma pequena reverência e estendeu a mão como se esperasse que ele fosse beijá-la. Mas Lucius segurou tranquilamente a mão estendida e puxou minha amiga para um abraço menos vigoroso, mas mesmo assim receptivo. Falou baixinho com ela, também, mas ouvi-o dizer:

– Obrigado, Melinda, por ter vindo. Obrigado por tudo.

Eles se afastaram, mas Lucius apertou a mão dela antes de soltá-la e vi que os olhos de Mindy estavam brilhando. Ela havia entendido tudo o que ele quis dizer. Obrigado por insistir que Antanasia me desse uma chance... Por tentar me salvar... Por nos defender quando ninguém mais faria isso...

Ele voltou para o meu lado, dominando as emoções, que percebi estarem de novo surpreendentemente perto da superfície, e pôs a mão nas minhas costas, unindo-nos como fazia com frequência quando estávamos em público. Eu amava o modo como ele sempre mostrava que éramos um casal e tinha os mesmos instintos possessivos com relação a ele. Olhei seu rosto bonito. Logo nos apresentaríamos diante do mundo para oficializar o que sentíamos.

– Devo me desculpar – disse ele, dirigindo-se primeiro a mim, depois a mamãe, papai e Mindy. – Como diriam vocês, preciso fazer sala a nossos convidados romenos.

Olhei em volta e percebi que várias outras pessoas – vampiros – tinham chegado. Dentre eles vi alguns dos meus parentes Dragomir, inclusive tio Dorin, com o rosto já vermelho por causa do calor da sala e talvez pela taça de vinho tinto que ele segurava enquanto contava alguma história animada para três primos meus.

Virei-me para olhar para um canto distante da sala e vi que Claudiu, tio de Lucius, também havia se juntado a nós. A paz que eu tinha acabado de sentir ao ver meus amigos e parentes reunidos com Lucius foi um pouco abalada.

Claudiu – o irmão mais novo de Vasile, que Lucius havia destruído na mesma casa onde estávamos.

Eu não acreditara que Claudiu marcaria presença numa ocasião feliz daquelas. Apesar de ser um dos Anciões que governavam os clãs, não havia qualquer afeto entre ele e Lucius. Mas Lucius, defensor das regras de etiqueta, havia insistido em convidá-lo, porque não fazer isso o afastaria ainda mais, talvez causando um rompimento do qual não haveria mais volta.

A presença de Claudiu na sala pareceu embaçar as velas um pouco, lançar sombras mais profundas na pedra. Olhei para ele lembrando-me de que – juntamente com o amor eterno – a obrigação, a política e a diplomacia também faziam parte de minha vida nova. Eu estaria me ligando ao clã Vladescu quando juntasse minha vida ao vampiro que estava com a mão em minhas costas.

– Não vou demorar, Antanasia – prometeu Lucius.

– Vou com você – ofereci, pensando que provavelmente era adequado que eu cumprimentasse todo mundo.

Mas Lucius me impediu, passando a mão pelo meu braço e apertando-o de modo tranquilizador.

– Você terá tempo de falar com todo mundo mais tarde – disse com um sorriso. – Por que não acompanha nossos visitantes americanos? Veja se eles estão à vontade. Eu levo nossos parentes até você, o que é perfeitamente adequado, já que você não é somente da realeza, mas também, por mais um dia, é tecnicamente uma convidada aqui.

Lancei-lhe um olhar agradecido, sabendo que ele devia estar quebrando o protocolo um pouquinho para dar a mamãe, papai e especialmente a Mindy tempo para se acomodarem antes de serem deixados sozinhos numa festa onde eram estranhos. Olhei de novo a sala ao redor, notando que mais alguns convidados haviam chegado e tentando me lembrar de quem era Vladescu e quem era Dragomir. Não que eu não fosse praticamente uma estranha, também.

Por enquanto.

Então vi Lucius andar com sua confiança de sempre na direção de Claudiu e do pequeno grupo ao seu redor e invejei meu noivo pela facilidade com que se movia nos círculos de poder – às vezes poder perigoso – nos quais eu estava entrando.

Também me peguei admirando outras coisas em Lucius. Sua altura sempre impressionante; o cabelo grosso e preto, que estava um pouco mais curto e arrumado do que normalmente, para o casamento; e o modo como ficava bem no terno escuro, feito sob medida, que tinha escolhido para a ocasião. Seus ombros eram largos sob o paletó bem cortado e as pernas pareciam mais longas e fortes na calça estreita de estilo europeu.

Eu estava tão absorta em observar Lucius que mal notei papai falando com Mindy:

– Venha, Melinda Sue! Vamos ver se achamos alguma coisa para beber.

Enquanto eles se afastavam, nem parei para pensar que provavelmente era responsabilidade minha providenciar bebidas para os convidados. Como às vezes acontecia, eu estava quase hipnotizada por Lucius.

Enquanto cumprimentava Claudiu e os outros, ele sorriu, de modo que seus dentes brancos – tão brancos quanto sua camisa bem passada – relampejaram à luz das velas e meu coração deixou de dar algumas batidas. Eu não via nem sentia as presas de Lucius desde a noite em que ele havia completado minha transformação em vampira. Estávamos esperando a noite de núpcias para nos tocarmos daquele jeito de novo, saboreando a expectativa, que era quase insuportável, já que agora ele ficava perto de mim todo dia.

Pus a mão no peito, sentindo que o coração havia começado a disparar.

– Ele é muito bonito.

Minha mãe sussurrou isso no meu ouvido e dei um pulo, depois me virei e a peguei sorrindo para mim, com a expressão provocadora de quem sabe das coisas.

– Mamãe! – comecei a protestar, vermelha por ter sido flagrada olhando para Lucius com o que devia ser luxúria óbvia. Depois me lembrei de que não era mais uma menininha e de que Lucius era quase meu marido. Eu podia olhar. Logo eu seria como mamãe, uma mulher casada. Controlei o rubor e confessei:

– Parece que ele está ficando mais bonito ainda, para mim.

Olhei de novo para Lucius e vi que ele estava dando um sorriso largo, passando a mão pelo cabelo preto enquanto conversava com o tio, agindo como se não houvesse tensão entre eles.

– Também acho que ele está ficando mais bonito – concordou mamãe.

Estremeci um pouco, surpresa com o comentário, e notei que ela não estava rindo mais. Parecia pensativa, mas de um modo satisfeito, enquanto acrescentava:

– Ele está feliz, Jessica. É por isso. A felicidade embeleza as pessoas.

Sorri para minha mãe.

– Espero que ele esteja feliz, mamãe.

Então papai e Mindy se juntaram a nós outra vez, papai carregando algum tipo de caneca de estanho da qual não teve chance de beber porque de repente a voz profunda de Lucius rompeu as conversas que aconteciam em voz baixa e anunciou:

– Caros convidados, por favor, queiram ocupar seus lugares. O jantar será servido!

Fui para o meu lugar numa das extremidades da mesa, Lucius ocupou o dele na outra ponta e o restante dos convidados procurou seus nomes nos cartões de pergaminho arrumados artisticamente em suportes de prata diante de cada cadeira de espaldar alto.

Enquanto nos sentávamos, percebi que havia um lugar vazio – faltava uma pessoa, à direita de Lucius – e de jeito nenhum consegui me lembrar de quem deveria se sentar ali.

Meus pensamentos mudaram de direção quando um grupo de silenciosos empregados uniformizados retirou os cartões que marcavam os lugares e os substituiu por cardápios individuais que traziam os pratos da noite em uma caligrafia cheia de arabescos.

Um a um, os pratos foram apresentados.

E, alguns segundos depois, todos os americanos caíram na gargalhada.

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