CAPÍTULO 7

– E aí... – Mindy puxou os joelhos para o peito e abraçou as pernas, provavelmente tentando se manter aquecida no meu quarto, que era gelado até mesmo no verão. – Qual é a daquele tal de Raniero? Ele foi uma tremenda surpresa, hein?

Terminei de abotoar meu pijama e engatinhei sobre o colchão para me juntar a ela. Nossa última “festa do pijama” antes de eu começar a dormir toda noite com outra pessoa. E não só dormir...

– Raniero não é o que eu esperava – admiti, tentando me distrair dos pensamentos sobre minha noite de núpcias, que de repente pareciam enormes na minha cabeça, de novo.

Lucius era experiente. Eu não era. Será que isso importaria para ele? Será que ficaria evidente... de um modo ruim?

Uma noite, quando Lucius e eu estávamos sozinhos no escritório dele, nos beijando – Lucius obviamente lutando contra o desejo de fazer mais, apesar de nossa decisão de esperar até o casamento –, eu tinha dado a entender que estava preocupada. Não pude deixar de questionar se sabia o que estava fazendo, mesmo só beijando, e meio que pedi desculpas, sem graça, pela inexperiência. Lucius recuou, com uma expressão estranha nos olhos e um pequeno sorriso nos lábios enquanto dizia:

– Não creio que eu poderia permitir que outro homem que tivesse tocado você continuasse a andar pela Terra. O único motivo para Zinn haver sobrevivido é a dívida que tenho para com ele.

Lucius alargou um pouco o sorriso, brincando.

– Sua inexperiência salva vidas, Antanasia.

Pelo menos ele estava tentando fazer graça do assunto, porque eu sabia que Lucius não gostava mesmo da ideia de eu ter namorado outra pessoa, assim como eu não gostava de pensar nele com as “debutantes de Bucareste” que espreitavam em seu passado – ou com Faith Crosse. Principalmente com Faith, que era tão nojenta e que sem dúvida alardeava ter muita experiência.

– Você ia começar a dizer alguma coisa sobre o Raniero? – instigou Mindy, batendo no meu joelho e felizmente acabando com minha linha de pensamento. – Terra chamando Jess!

Balancei a cabeça, desfazendo imagens que não queria formar – ou cenas que não queria relembrar.

– Só sei que Raniero é primo de Lucius – afirmei, tentando afastar da mente a imagem de Lucius e Faith juntos na cama do apartamento em cima da garagem. – Mas Lucius o considera um irmão, porque eles cresceram juntos no castelo Vladescu.

– Raniero também perdeu os pais? – perguntou Mindy. – Por que morou tanto tempo com o Lukey?

Sorri quando Mindy usou o apelido que eu não escutava fazia muito tempo.

– Os pais dele moram na Itália – expliquei, tentando me lembrar de tudo o que Lucius havia contado sobre seu padrinho. – Mas os Anciões acharam que seria sensato educá-lo com Lucius.

Mindy inclinou a cabeça parecendo confusa, talvez porque tivéssemos crescido numa cultura onde herdeiros do trono não eram um assunto tão importante.

– Por quê? – perguntou.

– Como Lucius é filho único, os Anciões acharam que seria sensato preparar outro jovem vampiro Vladescu para ocupar seu lugar, caso alguma coisa...

Não consegui me obrigar a terminar a frase. Principalmente na véspera do meu casamento, quando eu deveria estar planejando um futuro longo e feliz com Lucius.

– De qualquer modo, os Anciões acharam que Raniero era promissor e que poderia ser criado para servir como o braço direito de Lucius, quase como um general – acrescentei. – Seria o segundo em comando, já que não existe nenhum irmão Vladescu de sangue puro.

– E o que deu errado? – perguntou Mindy, pegando um travesseiro e apertando-o contra o peito. – Porque Raniero não parece capaz de organizar um luau na praia de onde veio, quanto mais comandar um exército ou uma nação!

Dei de ombros.

– Lucius não revelou muita coisa sobre ele. Só que o cara se mudou abruptamente para a Califórnia há alguns anos e se afastou dos líderes do clã.

De repente imaginei se Raniero já teria passado um tempo naquela masmorra que eu tinha visto. Ou será que esse tipo de “educação” era reservado para o treinamento de príncipes genuínos? Porque se Raniero tinha cicatrizes iguais às do Lucius – se ele foi levado para aquelas câmaras escuras para ser “educado” até estar com a vida por um fio, até que a carne fosse arrancada e os ossos, quebrados –, eu podia entender por que teria ido morar numa praia ao sol.

– Mas ele e Lucius obviamente continuam ligados – acrescentei, descartando mais pensamentos ruins, lembranças da surra que os tios de Lucius haviam dado nele quando foram à Pensilvânia e de como isso o havia mudado, levando-o para um lado sombrio.

– Bom, sem dúvida Lucius e Raniero são diferentes – observou Mindy, revirando os olhos. – Lucius é totalmente régio, e Raniero é tipo... um vagabundo!

Ainda que meus pensamentos tivessem acabado de ficar presos numa masmorra sinistra, não pude deixar de rir da ideia de um vampiro vagabundo, sobretudo um Vladescu vagabundo.

– Nós só o vimos durante algumas horas – lembrei a ela. – Talvez ele só estivesse tendo um dia difícil.

– Ou um ano difícil – disse Mindy. – O cara precisa cortar aquele cabelo. Ou pelo menos tomar um banho!

– Mindy! – comecei a protestar, querendo defender o melhor amigo de Lucius, mas descobri que não podia. Raniero Vladescu Lovatu tinha parecido meio... desleixado. Tomara a sopa como se fosse um bárbaro faminto, o corpo frouxo na cadeira, e chegara a chamar um empregado balançando a mão e gritando, em seu sotaque italiano com levada de surfista da Califórnia:

– Ei, brother, mais lentilha, per piacere.

Eu tinha ficado olhando para Lucius, esperando que ele se encolhesse ou talvez até sugerisse que Raniero tivesse bons modos, mas não vi nada mais do que diversão nos olhos do meu noivo.

Quem, exatamente, era esse cara que Lucius chamava de “irmão”? E será que ele tinha algum interesse no poder que também fora criado para talvez exercer um dia? Será que aquelas sandálias de borracha não seriam só um disfarce?

– Acho que veremos se ele vai tomar um banho para o casamento, não é? – falei, rindo e descartando minhas suspeitas sobre o amigo mais íntimo de Lucius. – Não consigo imaginar que Lucius deixaria seu padrinho, até mesmo um cara que ele considera irmão, usar bermuda de surfista na cerimônia!

Mindy abraçou o travesseiro com mais força e franziu a testa.

– A não ser que alguém dê uma boa geral naquele cara de hoje para amanhã, minhas esperanças não vão aumentar.

– Esperanças? – perguntei, sem saber por que Mindy se importava com Raniero. Afinal, o casamento era meu. Se o padrinho de Lucius parecia ter acabado de ser devolvido pela maré, o problema era meu.

– Bom, sou eu que vou passar o casamento inteiro com ele, certo? – lembrou ela. – E pelo menos preciso dançar com ele, não é?

Então percebi que, sendo minha dama de honra, Mindy provavelmente considerava Raniero seu acompanhante. E talvez, apenas talvez, ela tivesse esperado que o sujeito com quem ficaria fosse... melhor. Ou, dada sua antiga paixonite pelo “Lukey”, um pouquinho parecido com o noivo.

– Ah, Mindy...

Queria lhe dizer que lamentava o fato de o padrinho de Lucius ser uma frustração e que não seria bom que ela sequer pensasse em se envolver com um vampiro. Eu nasci para me casar com Lucius – não desejava nada além da vida que estávamos prestes a compartilhar –, no entanto, não recomendaria a nenhum dos meus amigos essa opção por sangue, eternidade e ser considerada assustadoramente diferente.

Ter um vampiro como namorado, ou mesmo “ficante”, nem sempre era boa ideia. Meus dedos se cravaram nos cobertores da cama quando pensei de novo, com uma mistura de ciúme e raiva, em Faith Crosse. Não, flertar com um vampiro podia ser perigoso para todos os envolvidos.

Mas antes que eu pudesse alertar Mindy de que ela provavelmente tinha sorte por Raniero não fazer seu tipo, fomos interrompidas por uma batida na porta e minha mãe enfiou a cabeça para perguntar:

– Mindy, será que eu poderia falar com Jessica um minuto? Tenho uma coisa para dar a ela.

Ia dizer a mamãe que Mindy provavelmente poderia ficar. Afinal de contas, éramos praticamente irmãs, tanto quanto Lucius e Raniero eram irmãos. Mas então vi sua expressão e me virei para Mindy:

– Depois a gente se fala.

Porque a expressão no rosto dela... Eu nunca tinha visto minha mãe daquele jeito.

Site Meter