CAPÍTULO 9

“Confie nos seus instintos e desconfie de qualquer um que a deixe ao menos um pouco cautelosa, mesmo sendo um de seus amigos mais íntimos.”

“Os Vladescu têm vontade forte, mas uma princesa Dragomir jamais se dobra.”

“Sempre serei parte de você, Antanasia...”

Fechei o caderno de capa de couro preta e afundei na cama, sem ao menos saber como tinha caminhado de volta até ela, de tão absorta que estivera lendo a letra apertada e cuidadosa da minha mãe. Parecia que ela havia tentado encher cada centímetro do caderninho minúsculo – suficientemente pequeno para ser carregado num bolso, ou talvez escondido nos cobertores de uma criança fugitiva – com toda a sua sabedoria. Tudo de que ela obviamente havia pensado que eu precisaria para ser governante não de um, e sim de dois clãs. E para ser uma esposa.

Acariciei a capa com as pontas dos dedos, acompanhando o couro cheio de relevos parecendo pedrinhas e dominada pela sensação de quanto ela devia me amar para ter se preocupado em me deixar aquele legado.

Lucius tinha me dado o manual para virar vampira; Mihaela Dragomir me dedicara um guia para sobreviver como vampira.

Fechei os olhos por um momento, baixando a cabeça com respeito num gesto de gratidão a ela.

Obrigada, Mihaela, por me proteger, mesmo estando claro que você via sua própria destruição se aproximando.

Apesar de ter apenas folheado o caderno, sabendo que leria tudo com mais atenção – que passaria a viver pelas palavras dela nos meses e anos que viriam – eu percebera como as mensagens de minha mãe biológica ficavam mais curtas e objetivas e a letra, mais irregular, à medida que as páginas iam acabando, como se ela soubesse que o tempo para registrar seus pensamentos também estivesse chegando ao fim.

Tremendo e percebendo de repente que o quarto tinha ficado mais frio enquanto eu lia de pé, me enfiei embaixo dos cobertores e pus o caderninho sob o travesseiro, como se talvez pudesse absorver sua sabedoria durante o sono. Também queria mantê-lo perto. Até a mesinha de cabeceira parecia longe demais para uma coisa tão valiosa – pelo menos para mim.

Pousando a cabeça no travesseiro macio, fechei os olhos, já me sentindo mais quente, não só por causa dos cobertores, mas porque parecia ter uma nova aliada nesse mundo ainda pouco familiar no qual estava entrando, uma pessoa sábia, que já havia enfrentado as coisas que estavam por vir para mim e que podia me ajudar.

Também entendi por que minha mãe adotiva havia sentido com tanta intensidade que estava me entregando o começo de uma vida nova, com novos conselhos, porque as palavras de Mihaela sem dúvida seriam minha principal orientação dali em diante. Mas eu sabia que sempre precisaria de mamãe também e que iria procurá-la quando pudesse.

Ainda que o presente e a noite tivessem sido um tanto tristes, comecei a sorrir, lembrando-me de uma passagem específica que tinha notado enquanto folheava rapidamente.

“Espero que você venha a amá-lo...”

Eu sabia que Mihaela se referia, claro, a Lucius – com quem eu me casaria no dia seguinte. Eu o amava tanto que era quase de dar medo e ao mesmo tempo, maravilhoso.

Lucius... Como eu poderia não querer VOCÊ?

Comecei a tentar visualizar nosso casamento, mas talvez porque ainda não tinha certeza de onde ele aconteceria, tive dificuldade em imaginá-lo. Então, como acontecia com frequência desde a noite em que Lucius havia feito o pedido, me peguei lembrando daquilo, revivendo tudo na mente. E mesmo tendo certeza de que não conseguiria dormir um segundo sequer na noite antes de nos casarmos, em pouco tempo estava caindo no meu sonho predileto, que sempre começava com Lucius pegando minha mão e me levando por um caminho que só uns poucos vampiros – e dois humanos muito especiais – conheciam.

“Venha comigo, Antanasia”, convida ele, dedos fortes e frios segurando minha mão. “É hora de lhe mostrar um lugar que não é somente especial, mas também sagrado...”

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