EPÍLOGO

A clareira da montanha estava silenciosa e nossos convidados aguardavam cheios de expectativa enquanto eu ia até Lucius, que me estendeu a mão esquerda, oferecendo-a de um modo diferente do que havia feito na cerimônia. Dessa vez sua palma cortada se virou para frente, de modo que eu visse com clareza o X que ele havia posto ali.

Aceitei sua mão esquerda com a minha direita e ele pôs a outra nas minhas costas, moldando-a de encontro ao meu corpo. Depois pousei minha mão esquerda gentilmente em seu braço direito, bem onde seu bíceps se pronunciava.

Enquanto estávamos virados um para o outro, preparados para nos movermos ao som assombroso da Sonata ao luar, de Beethoven, não fiquei preocupada com o fato de eu ainda não saber dançar bem. Apesar de algumas lições de última hora no escritório de Lucius, eu não evoluíra muito em relação à primeira vez em que dançamos, no ginásio da Escola Woodrow Wilson, sob luzes piscantes que nunca mais me satisfariam, agora que havia me casado num mar de velas.

Não, eu não sabia dançar, mas era capaz de pôr aquele olhar no rosto de Lucius, aquela expressão de adoração, protetora, que vi em meu marido enquanto ele me segurava.

O pianista começou a tocar e Lucius e eu nos movemos ao som das notas delicadas e poderosas que eram uma cascata de luz e mistério, uma expressão musical de como eu me sentia todas as vezes que via Lucius depois de termos nos separado ao menos por alguns minutos, como acontecera depois da cerimônia. Era como o jorro incomparável de alegria, calma e empolgação que me dominava sempre que ele entrava num cômodo. E por baixo disso estavam os tons sombrios também...

Nós nos movemos juntos no centro de um círculo formado por todos os convidados. Lucius apertou com mais firmeza a mão que estava nas costas do vestido preto – um negativo fotográfico do traje tradicional de casamento – que eu tinha posto depois da cerimônia, porque sua palma cortada havia sujado de sangue o vestido branco quando nos beijamos.

A música era cheia de mudanças de ritmo e complicada de acompanhar, mas ele me guiou pelas partes mais difíceis, meus olhos fixos nos dele para não tropeçar.

Que olhos incríveis tinha meu marido...

Ele sorriu e, como eu sabia que aconteceria, errei a passada e chutei o pé dele. Então desisti e soltei minha mão da dele, passando os braços em volta de seu pescoço e esquecendo a tentativa de dar alguns passos básicos, porque de súbito só queria abraçá-lo enquanto aquela canção linda e pungente tocava. A música, composta havia séculos e ainda tão sugestiva, me fez pensar ainda mais no tempo, um assunto que estivera em minha cabeça durante toda a noite.

Anos, décadas, séculos... eternidade.

Tínhamos a promessa disso, mas, dado quem éramos, governantes, ambos sabíamos que essa promessa era provavelmente falsa. Sabíamos que um dia seríamos tirados um do outro, como nossos pais haviam sido separados para sempre. Pessoas amedrontadas iriam se voltar contra nós ou alguém da nossa espécie iria nos trair.

Quando pousei o rosto no peito dele, Lucius também desistiu de tentar me guiar valsando e acariciei seu cabelo enquanto oscilávamos, dizendo a mim mesma para não me preocupar na minha noite de núpcias – porque aquele dia terrível poderia acontecer dali a uma semana ou mil anos.

– Alguma coisa errada, esposa minha? – sussurrou Lucius, usando a palavra da qual não parecia se cansar naquela noite. – Sinto que você não está feliz.

Levantei o rosto, percebendo que outros convidados tinham se juntado à nossa dança e me obrigando a sorrir, porque não queria que ele se preocupasse nem desperdiçar essa comemoração pensando em coisas terríveis que poderiam jamais acontecer. Era só a música que tinha feito com que eu me sentisse triste por um minuto.

– Eu só estava imaginando como Lucius Vladescu colocou um piano de meia cauda numa clareira no alto dos Cárpatos – falei, provocando-o. – Estava tentando entender a logística.

Lucius riu, surpreso, e me apertou com mais força.

– Fico feliz por você manter seu lado racional e matemático, Antanasia, porque amo isso também.

Olhei a clareira rochosa ao redor, coberta de grama. Não era exatamente adequada para uma festa, mas era especial para mim.

– Deixando as brincadeiras de lado, Lucius... – continuei, acariciando sua nuca com o polegar e encarando-o, de modo que ele pudesse ver como eu apreciava de verdade tudo o que ele havia feito. – Obrigada por tornar isso possível. A comida, a música, tudo, aqui.

Lucius ficou sério.

– Se é aqui que você vê sua mãe nos sonhos e se você sente que Mihaela está conosco agora, eu arrastaria 100 pianos montanha acima para torná-la parte da comemoração, para você.

– Sei que é estranho – admiti. – Mas realmente sinto a presença dela aqui.

Eu tinha visto a clareira pela primeira vez num dia em que Lucius e eu saímos para cavalgar. Reconheci imediatamente o afloramento semicircular de pedras, porque o tinha visto muitas vezes enquanto dormia. Nos sonhos, quase sempre era inverno e a terra estava coberta de neve, mas aquelas rochas pontiagudas eram inconfundíveis. Cheguei a dar um puxão nas rédeas, erguendo-me da sela e procurando por minha mãe, certa de que ela estaria ali, me esperando, e só então lembrei que ela havia partido anos antes. Eu estava procurando um fantasma. Um fantoma, como diriam meus novos compatriotas.

– Sou completamente irracional, como você costumava me lembrar – brincou Lucius, mudando a posição das mãos para apertar minha cintura. – Eu acredito no poder dos sonhos. Como a maioria dos vampiros, dou grande importância a eles. O que você sente aqui não parece estranho para mim, nem um pouco.

Estremeci nos braços dele, porque meus sonhos pareciam estranhos para mim. Premonitórios às vezes, como a sonata.

Olhei em volta, surpresa ao ouvir nada além do farfalhar do vento nas árvores, taças tilintando e conversas baixas a distância. Então olhei de volta para Lucius e encontrei-o rindo para mim.

– Você percebeu que a música tinha terminado? – perguntei. – Que todo mundo parou de dançar?

– Percebi – admitiu Lucius, ainda me segurando. – Mas não estava pronto para soltar você.

Enquanto nos separávamos relutantes, estremeci de novo, desta vez porque estava ficando tarde e frio... e por causa da expectativa também. Logo, logo estaríamos longe de todos e não haveria motivo para parar de nos abraçarmos, de nos beijarmos, de nos tocarmos.

– Deveríamos nos despedir agora – sugeriu Lucius, pegando minha mão e me levando para a tenda branca e diáfana em que todos estavam reunidos e onde haviam sido postos candelabros de ferro iguais aos da sala de jantar dos Vladescu.

Essa era mais uma mágica de engenharia e logística aparentemente impossível que o mago com quem me casei conseguiu realizar naquela noite, além de levar montanha acima todos os nossos convidados, um incrível jantar de sete pratos e aquele piano.

– Eles vão se sentir obrigados a permanecer até irmos embora – acrescentou Lucius, sorrindo. – Devemos partir logo, para eles ficarem à vontade para ir também.

Enquanto andávamos de mãos dadas sob as estrelas, tentei decifrar aquele sorriso. Ou ele percebeu meu tremor e também viu que estava ficando tarde ou estava ansioso também.

A julgar pelo brilho nos seus olhos, tive a sensação de que era principalmente a segunda hipótese.

Entramos na tenda, Lucius se curvando porque era alto demais para as partes mais baixas, e começamos a nos despedir e agradecer. Só então pude falar com meu tio Dorin, que eu praticamente não tinha visto durante a noite. Eu o havia notado apenas duas vezes: uma falando com Mindy e uma se esforçando para manter uma conversa com Claudiu, que, claro, ele conhecia de reuniões dos Anciões, mas que não era exatamente um amigo.

Na verdade, muito pelo contrário.

– Ah, Antanasia – disse Dorin, os olhos brilhando mais ainda do que o normal. – Que festa linda! Lindíssima. Estou muito feliz por vocês dois!

– Obrigada – respondi, abraçando-o. – Obrigada por vir e por tudo o que fez para que isso acontecesse.

Quase derramando o vinho tinto que estava tomando, talvez porque não tínhamos servido cappuccino, Dorin fez um gesto com as mãos para dispensar minha gratidão.

– Você fala isso com muita frequência. Não foi nada! Aquilo tinha que ser feito!

Eu realmente agradecia um bocado ao tio Dorin. Mas será que algum dia seria capaz de exprimir gratidão suficiente pela forma como ele havia orquestrado a sobrevivência de Lucius no celeiro de Jake Zinn e de algum modo levado o “corpo” de volta à Romênia? Ou por violar as ordens de Lucius e voltar aos Estados Unidos para me informar que ele estava vivo?

Lucius estendeu a mão, acrescentando:

– Obrigado, Dorin. Antanasia está certa. Você foi fundamental para trazê-la de volta para mim.

Dorin apertou a mão de Lucius, como sempre parecendo meio intimidado pelo meu marido, mesmo numa festa. E meu tio ficou definitivamente branco quando Lucius acrescentou, ainda sorrindo e apertando a mão dele com força:

– No entanto, eu não sugeriria que desconsiderasse qualquer ordem direta no futuro, mesmo tendo intenções nobres.

Era uma brincadeira – mas também um alerta. Lucius estava feliz com o resultado da insubordinação de Dorin, mas, como me contava com frequência, os vampiros eram um grupo indisciplinado. Era fácil perder o controle se você permitisse que a menor desobediência passasse despercebida.

– Pode deixar! – concordou Dorin, com um riso nervoso. Os dois soltaram as mãos e ele acrescentou, parecendo aliviado por olhar para mim. – Parabéns a vocês dois!

Lucius ficou mais ereto, franzindo a testa e examinando a multidão.

– Bom, onde está Claudiu?

A cor que havia retornado às bochechas de Dorin sumiu de novo e ele não encarou Lucius enquanto nos informava:

– Claudiu? Ele... ele não estava se sentindo bem. Eu... acho que foi embora.

Lucius olhou para Dorin arqueando uma sobrancelha.

– Verdade? Saiu do meu casamento sem me dizer uma palavra?

O rosto de meu tio estava lívido, como se ele tivesse medo de Lucius matar o mensageiro.

– É... creio que sim.

Eu mesma me senti mal. Sabia a razão da partida de Claudiu. Ele não suportava a ideia de uma Dragomir fazer parte da família Vladescu. Mal tolerava Dorin como um dos Anciões e nem pudera olhar para mim enquanto eu escrevia meu nome na árvore genealógica. Eu tinha certeza de que Lucius não havia ficado cego diante da atitude de Claudiu e que não gostaria dessa desfeita.

– Se vir o meu tio – disse Lucius a Dorin –, por favor, diga que me informarei sobre sua saúde dentro de um ou dois dias.

– Lucius... – falei.

Pus a mão em seu braço, reconhecendo no tom seriamente mortal que aquela não seria uma visita amigável. Ele não parecia com raiva, mas estava muito claro que não aceitava o sumiço de Claudiu, que seu tio precisaria prestar contas e, se necessário, seria forçado a me aceitar como parte da família.

– Informarei a Claudiu que você planeja fazer uma visita – prometeu Dorin, nervoso. E tomou todo o vinho de uma vez só, engolindo com dificuldade. – Se eu o vir, certamente o avisarei.

Lucius pôs a mão nas minhas costas e nos guiou para longe do meu tio. Quando nos afastamos alguns passos, fiz com que ele parasse e sussurrei:

– Lucius, por favor...

Mas o que eu poderia pedir? Até eu reconhecia que o fato de Claudiu ter saído cedo sem dizer nada era um insulto a nós – a mim. Se íamos governar juntos, isso teria que ser resolvido. Caso contrário, Claudiu seria capaz de pensar que poderia me ofender sem consequências, o que começaria a minar minha autoridade já tênue. E isso não seria bom. De repente me lembrei de uma coisa que tinha lido quando folheei o presente deixado por minha mãe biológica: “Uma vez que se perde o poder, é IMPOSSÍVEL recuperá-lo.”

Mesmo assim eu não queria começar uma briga.

Lucius entendeu a consternação no meu rosto e pegou meu braço, sorrindo e me tranquilizando, baixinho, para que só eu ouvisse:

– Boa parte da atitude de um governante é blefe, Antanasia. Não se preocupe com algo tão pequeno como um confronto com Claudiu. Não vai dar em nada.

Mas Lucius tinha destruído o irmão de Claudiu. Episódios violentos aconteciam...

Lucius percebeu que eu não estava convencida de que não havia com o que nos preocuparmos.

– Se isso faz você se sentir melhor, vou levar meu padrinho comigo – prometeu, com riso nos olhos. Depois se empertigou e examinou os convidados de novo. – Onde está Raniero? Será que também me abandonou?

Comecei a procurar com ele, esticando o pescoço.

– Na última vez que vi, ele estava com Mindy e os dois estavam dançando não muito longe de nós.

Enquanto olhava ao redor procurando Mindy e Raniero, me lembrei de ter pensado, naquela hora, que eles pareciam estar se dando muito bem. Mindy estivera rindo, como se finalmente houvesse descoberto que Raniero era um acompanhante divertido, ainda que decepcionante em termos físicos e higiênicos.

Franzi a testa. Será que ele havia sido decepcionante, afinal de contas?

Com o cabelo castanho revolto domado num rabo de cavalo e a bermuda de surfista substituída por um dos smokings que o pobre alfaiate de Lucius, afogado em trabalho, havia ajustado ao corpo magro de surfista, Raniero havia ficado bastante apresentável. Era alto como um Vladescu, tinha olhos verde-acinzentados incomuns – talvez herdados de seu lado italiano, dos Lovatu – e um sorriso que conquistava aos poucos. A maioria das garotas, sobretudo se não tivessem visto Raniero com as sandálias de borracha sujas, provavelmente ficaria feliz em ter a companhia dele num casamento.

Mas Mindy e um vampiro?

Olhei para Lucius, que parecia pensar a mesma coisa.

– Você não acha que eles...? – perguntei.

Lucius balançou a cabeça e suspirou.

– Ah, espero que não.

Eu queria perguntar com quem ele estava preocupado. Com Raniero, à mercê de Mindy Stankowicz, que lia a Cosmopolitan havia pelo menos uma década, preparando-se para “pegar” um cara? Ou haveria algo que eu deveria saber sobre Raniero Lovatu e seu histórico com as garotas?

Antes que eu pudesse perguntar, senti um tapinha no ombro e me virei, vendo mamãe e papai e esquecendo Mindy totalmente.

* * *

Meus pais foram conosco pelo caminho da floresta que levaria Lucius e eu de volta ao castelo, onde passaríamos a noite de núpcias.

Lucius teria me levado a qualquer lugar do mundo – Roma, Paris ou alguma ilha particular no meio de lugar nenhum, se eu quisesse –, mas eu queria ir para casa com ele. Na nossa primeira noite juntos, queria estar na cama enorme onde esperava que passássemos muitas noites e onde algum dia começaríamos uma família.

– Você precisam mesmo voltar logo? – perguntei a mamãe e papai. – Podem ficar mais uns dias com o tio Dorin.

Mas os dois balançaram a cabeça.

– Não – disse mamãe. – Vocês dois estão em lua de mel. E nosso avião parte amanhã cedinho.

– Tudo bem – concordei. Eu sabia que eles não iriam ficar, mas parte de mim continuava agarrada aos dois. – Eu entendo.

Mesmo assim, todos nos demoramos à margem do caminho escuro que Lucius e eu íamos pegar. A maioria dos convidados seguiria por uma trilha mais estreita até uma estrada de terra, onde o transporte esperava para levá-los pelo resto do caminho montanha abaixo. Mas Lucius e eu tínhamos decidido andar sozinhos até o castelo, pegando um atalho pela floresta. A presença de qualquer pessoa a mais, mesmo um motorista, seria dispensável. Estávamos prontos para simplesmente ficarmos juntos.

– Tem certeza de que vocês vão ficar bem? – perguntou papai, olhando para as árvores. – Isso aí parece bem desolado.

Lucius, que estava ao meu lado, passou o braço à minha volta de modo protetor.

– Eu vou mantê-la em segurança, Ned – disse, tentando tranquilizar papai.– Ando por esses caminhos desde a infância.

Tive a sensação de que Lucius não se referia apenas à trilha que iríamos pegar. Meu marido, que adorava metáforas, estava falando de tudo o que havia à nossa frente.

– Vocês sabem que eu a protegerei com minha vida – acrescentou.

Meus pais, que um dia tinham temido que Lucius fizesse o oposto, não falaram imediatamente. Então mamãe disse:

– Sabemos que sim, Lucius.

Nós os abraçamos de novo e de repente já era hora de irmos. Meus olhos estavam cheios de lágrimas, de modo que tive que me agarrar à mão de Lucius. E no instante em que nos viramos para o caminho, ele parou e se virou de novo, chamando:

– Ned... Dara?

Meus pais pararam de andar também e se viraram.

– Sim...? – respondeu mamãe, parecendo insegura na escuridão.

Lucius pareceu inseguro também – outra situação rara para ele – enquanto perguntava:

– Será que eu poderia... chamar vocês de “mãe” e “pai”?

Houve um silêncio gigantesco e por um segundo – enquanto eu processava minha surpresa – fiquei com medo de que os dois dissessem não. Talvez procurando alguma alternativa que não parecesse tanto uma aceitação.

Não o desapontem, eu quis implorar. Isso destruiria outra parte dele...

Mas quando papai finalmente falou, pude ver que ele só hesitara porque a pergunta havia levado meu pai gentil e sentimental novamente à beira das lágrimas. Sua voz estava embargada e suave quando aconselhou ao Lucius:

– Na verdade preferiríamos “mamãe” e “papai”, filho. Não precisa ser tão formal com a família!

A mão de Lucius apertou a minha e sua voz também saiu um pouco tremida quando disse simplesmente:

– Obrigado. Isso significa muito para mim.

Eu duvidava de que Lucius algum dia fosse se dirigir aos meus pais como “mamãe” ou “papai” – era difícil imaginar essas palavras saindo da sua boca –, mas sabia que ele estava feliz por ter essa opção. O importante para ele era a permissão e tudo o que ela implicava.

Então, sem outra palavra, nós nos separamos, meus pais voltando ao caminho e à vida deles e Lucius e eu seguindo pela trilha solitária. Não falamos nada. Era bom demais estarmos simplesmente juntos, ouvindo a noite, pensando no que aconteceria, o que, de algum modo, não me amedrontava mais.

Por fim o castelo de Lucius – nossa casa – surgiu. Quando chegamos à porta enorme, um dos guardas, que provavelmente nunca estivera muito longe de nós, se materializou para abri-la e Lucius me pegou no colo, aninhando-me no peito.

O gesto era um clichê que nos fez rir, mas em segredo eu esperava que Lucius, sempre cavalheiro, me carregasse ao passar pela porta. Fiquei feliz por ele não me desapontar.

Entramos no saguão gigantesco onde um dia ele me declarara prisioneira e, sentindo a aliança e o anel de ouro pesados na mão esquerda, tive a clara impressão de que nada havia mudado realmente desde aquela noite. Mesmo antes daquela noite – desde a assinatura do pacto – éramos incapazes de escapar um do outro, não importando quanto tentássemos.

Lucius me carregou pelos corredores e eu me agarrei com força ao seu pescoço até chegarmos à porta do quarto que iríamos dividir – só que dessa vez não havia guarda à vista. Estávamos realmente sozinhos.

Ele se curvou um pouco para alcançar a maçaneta, girou-a e abriu a porta. Depois me pousou de pé com delicadeza, puxou-me e disse baixinho:

– Bem-vinda ao lar, Antanasia.

Eu não disse nada, não podia dizer nada. Ainda não queria falar. Só queria... Lucius.

Finalmente iríamos compartilhar tudo. Nosso sangue, de novo, e muito mais...

Então Lucius estendeu um braço, ainda me segurando com o outro, e, quando seus lábios tocaram os meus, ele fechou a porta, trancando o mundo lá fora.

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